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"...Tebas
fica bem situada, num planalto
chamado Concórdia, circundado de montanhas..."
Carlos
Wehrs
Trechos
do diário de um afinador de pianos, publicado em 1980,
que descreve a viagem que fez em 1886 a Leopoldina e Tebas.
O RIO
ANTIGO PITORESCO E MUSICAL - Memórias e Diário
Cristiano
CARLOS João WEHRS
AGOSTO
DE 1886
"...
22.
O dia amanheceu lindo e estou entusiasmado com isso. Assim mesmo
passei o tempo todo trabalhando com afinco. De tarde, o passeio
costumeiro.
23.
Trabalhei até findar o conserto no piano do Comendador Costa
Carvalho; tive ocasião de conhecer e conversar com as filhas
do mesmo; a mais velha, D. Rita, bonita, grande, elegante, com cerca
de 17 anos, conforme pude sentir, até gosta de mim.
À
noitinha, Juca Carvalho e eu, resolvemos montar um pouco a cavalo
e depois prolongar este passeio até a aldeia de Tebas, distante
umas 3 léguas (cavalgamos de 5 e meia até 8 e meia
horas) e que, afinal, alcançamos, após esforços
imensos, atravessando mata cerrada e seguindo trilha muito perigosa.
No hotel, em Tebas, o único e extremamente modesto, eu pernoitei
e mandei que cuidassem de meu cavalo de aluguel. Esses cavalos custam
em Leopoldina 3$000 por dia. Meu companheiro de viagem teve mais
sorte do que eu, pois dormiu em casa de um farmacêutico, seu
amigo.
24.
Domingo. Ontem à noite, como tínhamos uma fome tremenda,
antes de nos recolhermos, Juca ainda comprou duas latas de sardinhas
e uma garrafa de cerveja Eimbeck. Como eu tinha que ficar no hotel,
vigiando nossos objetos no quarto, pude ir apenas à venda
defronte e lá comprar, justamente quando o dono da mesma
voltava de um passeio noturno, uma garrafa de cerveja Calsberg,
por 1$200. Meu quarto ficava no pavimento térreo e dava para
a rua, o que me permitiu, a despeito da escuridão reinante,
reconhecer no lado oposto, a venda referida. Como a porta de entrada
do hotel já estava trancada àquela hora, Juca teve
que penetrar pela janela, também.
Abrimos
as latas de sardinha e tivemos que comer os peixinhos sem pão,
mas tínhamos, felizmente, cerveja. Cada um tomou a sua garrafa.
Não dispondo de talher, serviu-me o meu canivete. Que belo
quadro! Numa das mãos a lata, na outra o canivete e, no chão,
à minha frente, repousava a garrafa. Estava sentado na cama.
Depois meu amigo retirou-se e acordou o farmacêutico, para
pedir-lhe alojamento.
Tebas
compõe-se de 3 ou 4 ruas não pavimentadas e de uma
grande praça, e não me agradava muito. Decidi, por
isso, voltar hoje mesmo a Leopoldina. No meio da praça há
uma colina, em cuja parte mais elevada existe uma igreja bem bonitinha.
A parte frontal da igreja estava em obras, devendo a mesma ostentar
duas belas torres. De um modo geral, Tebas fica bem situada, num
planalto chamado Concórdia, circundado de montanhas; mas
é extremamente monótona.
Assisti
missa, rezada por um padre mulato. Até meu companheiro riu,
quando viu as reverências exageradas que os fiéis tributavam
ao cura. De manhã visitei, também, o farmacêutico,
rapaz agradável. Lá pelas 11 horas fui, a cavalo,
com um companheiro chamado Ramiro, até as proximidades da
serra que delimita o planalto Concórdia, distante cerca de
uma milha. Infelizmente chovia muito e, na volta, aconteceu-me um
pequeno acidente. Tínhamos que atravessar um trecho muito
perigoso, com lama até os estribos. Ramiro, que montava um
bom cavalo, aventurou-se para a beira do caminho, às margens
de um precipício; era uma ousadia, mas ele arriscou e conseguiu
chegar bem ao outro lado, graças à força e
destreza de seu animal. Mais adiante ele surgiu outra vez à
minha vista, alcançando novamente o caminho firme. E eu?
Que iria eu fazer com meu pobre pangaré de aluguel? Resolvi
então atravessar o imenso lamaçal, já que arriscar
o caminho do barranco eu não podia. O cavalo deu alguns passos
para dentro daquela lama e decidiu deitar-se lá mesmo, no
pior trecho. Com muito esforço e quase perdendo os sapatos
consegui desvencilhar-me do animal que, sentindo-se livre da carga,
levantou novamente e ficou a meu lado. Parecíamos dois porcos
imundos, que se haviam espojado na lama. Na fazenda próxima
deitei-me num regato e lavei-me cuidadosamente. Alguns minutos mais
tarde entramos em Tebas.
A chuva
continuava e fiquei retido, contra a minha vontade, por mais uma
noite naquele lugarejo. À noite ainda demos um pequeno passeio:
Juca, Ramiro, o farmacêutico e eu e, no caminho passamos por
uma choupana um pouco afastada e visitamos uma mulata, chamada Constância,
que distraia muito bem as pessoas...
25.
Encontrei hoje, para minha maior surpresa, Brandt, de Leopoldina,
vindo a negócios, sem que ele soubesse de meu paradeiro aqui.
Eu nem poderia tê-lo avisado, pois não tinha em mente
vir até cá. Brandt comunicou-me que ainda hoje retornaria
a Leopoldina, por causa de seu filho, que se achava enfermo. Decidi
voltar com ele. Às 5 horas, nós três, Brandt,
Juca Carvalho e eu, empreendemos a viagem de volta; Tebas, bonita
mas monótona, deixou-me gratas recordações.
Quando íamos saindo, aconselharam-nos ainda a ficar mais
um pouco, pois começavam a surgir no horizonte os prenúncios
de forte temporal; mas Brandt queria partir, ele tinha que voltar.
Mal havíamos passado pelas últimas casas de Tebas,
quando a sela do cavalo de Brandt, propositalmente mal arreiado
por um conhecido seu, soltou-se e, a barrigueira solta, caída,
espantou o animal. O cavalo, já um pouco nervoso de natureza
e bastante alto, começou a dar saltos em todas as direções,
saindo, depois em desabalada carreira para dentro dos campos vizinhos,
onde, afinal, um homem, surgido providencialmente não sei
de onde, conseguiu segura-lo. O fotógrafo, naturalmente,
não se podendo firmar na sela, foi jogado ao chão.
E agora?! Brandt queria viajar a todo custo. Ele e Juca voltaram
então a Tebas, para comprar um novo arreio, enquanto eu fiquei
debaixo de uma árvore, tomando conta dos dois animais: do
meu cavalo e do burro do Juca. Passada meia hora, voltaram. Brandt
tinha conseguido tomar emprestado um selim. Mas, mal tínhamos
alcançado a mata, quando a trovoada começou, com toda
sua intensidade, e uma escuridão quase total tomou conta
da região, de modo que fizemos o trajeto, correndo muitos
riscos e fazendo o maior dos esforços, até Leopoldina.
A despeito do mau tempo, cruzamos com o homem que regularmente faz
o percurso, entre Leopoldina e Tebas, transportando cartas importantes
e urgentes. O correio normal era levado em carro de boi, de 2 em
2 dias. Em diferentes lugares tentamos apear dos nossos animais,
porém nesses trechos meio pantanosos não se pode ficar
de pé, quanto mais andar...
Sabíamos
que tínhamos de atravessar um trecho muito perigoso. É
um caminho, limitado, de um lado por uma enorme pedra, um verdadeiro
paredão, e, do outro, por um barranco que se perdia nos abismos.
Juca tinha desaparecido, embora o chamássemos pelo nome por
várias vezes. Receávamos que se houvesse perdido.
Mas, quando tínhamos passado pelo tal lugar perigoso, encontramo-lo,
e juntos seguimos para um botequim existente no meio da mata (botequim
do João Gordo), para aquecermos nossos corpos com algumas
doses de aguardente. Refeitos, reencetamos a jornada e somente às
9 horas conseguimos rever as luzes amigas dos lampiões de
nossa querida Leopoldina. Encharcado da cabeça aos pés,
entrei no Hotel de Melo, onde muito se admiraram, já que
não sabiam de minha ida a Tebas. Mais alguns paratis e eu
me recolhia à minha cama, seco e aquecido."
NOVEMBRO
DE 1886
"...
9.
Hoje pela manhã eu tencionava ir a Tebas por causa de 3 afinações,
mas chovia a cântaros. Por isso peguei o meu cavalo e, juntamente
com o Guimarães, vendedor de café, do Rio, e um guia
(alugado pelo Guimarães, por 3&000), segui às
11 horas para a fazenda dos Barbosa Miranda. O guia no entanto errou
o caminho umas três ou quatro vezes, e isso na maior chuva.
Minha roupa estava toda encharcada e, até a cintura, coberta
de barro vermelho, já que freqüentemente tínhamos
de vadear por águas lamacentas. Embora distando só
duas léguas de Leopoldina, só chegamos à fazenda
à 4 horas da tarde, e, claro, fisicamente arrasados. Resfriei-me.
O fazendeiro e seu filho são ótimas pessoas, mas recusaram
a afinação de seu Gaveau. À noite, toquei diversas
músicas ao piano e cantei outras; o fazendeiro gostou tanto,
que ficou emocionado a tal ponto de as lagrimas lhe rolarem pela
face. Como, porém eu não me sentia bem, pedi cedo
para que me indicassem o meu aposento. Deram-me um bom e espaçoso
quarto. Passei uma péssima noite, conseqüência,
naturalmente, da viagem.
10.
O tempo está maravilhoso! Isso incentivou-me a prosseguir
minha viagem a Tebas, apesar de eu ainda me sentir um pouco cansado
da véspera. Durante o percurso tive de atravessar uma ponte
perigosa. Para isso, apeei do meu burro e o conduzi lentamente até
o outro lado. Terminado o meu trabalho em tebas, voltei a Leopoldina
por aquele caminho difícil, já descrito anteriormente.
Estou bem resfriado. À noite meu terno novo ficou pronto,
custou-me 75$000. Com ele estou outra vez com bom aspecto."
...
23.
O tempo está novamente muito ruim. Trabalhei bastante na
horrenda mecânica do piano inglês do Dr. Lins durante
o correr do dia, o Sr. Brandt me fotografou. Tenciono fazer com
as fotografias uma surpresa aos meus queridos cariocas, pois pretendo
viajar já na próxima sexta-feira, para poder, no sábado,
comparecer à festa de aniversário do Club schubert.
além disso, mandei confeccionar rapidamente uma caixa grande
e longa para o meu jacaré de 1 1/2 metro, lindo exemplar,
e que vou levar ao Rio. Além deste bicho, vou ainda levar
outros, todos em caixas, maiores ou menores: 1 lontra, 1 cachorro
do mato, 1 gato do mato, 1 macaco, 1 mico estrela, 1 cobra (de 2
metros de comprimento), 1 urutau (espécie de coruja), 1 gavião
(ave grande e bonita, branca com asas cinzentas) e outros pássaros
menores etc. Toda essa bicharada comprei, incluído o acondicionamento,
por 60.000, em Tebas, de um dono de venda e caçador, que
se comprometeu, ainda, de remeter tudo, via carro de boi, a Leopoldina.
Os animais foram todos empalhados por ele próprio. O macaco,
por exemplo, pode ser atirado ao chão, sem se estragar: todos
os seus membros levaram molas e arames, que o tornaram elástico.
Estou certo de que, no Rio, ele fará sucesso, e, pelo menos,
não chego lá com as mãos vazias.
..."
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